MICHELLE ZAVODINI faz pose em uma lancha no mar de Santa Catarina, desfila ao sair de um avião de pequeno porte e aparece conversando com músicos da banda Barões da Pisadinha. Em seu Instagram, a influencer exibe uma rotina de festas, luxo e viagens. Desde 27 de dezembro do ano passado, porém, seu nome circula em outro contexto: ela aparece oficialmente como beneficiária do Programa Nacional de Reforma Agrária, vinculada ao Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá, no norte do Mato Grosso.
A inclusão de Michelle no sistema do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) foi denunciada à DPU (Defensoria Pública da União) e ao MPF (Ministério Público Federal) pela Assoplan (Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Planalto). A entidade representa 70 famílias sem terra da região, acampadas há mais de dez anos à espera de um lote.
Segundo a denúncia, acessada com exclusividade pela Repórter Brasil, Michelle não atenderia aos critérios socioeconômicos exigidos para um beneficiário da reforma agrária. A vida luxuosa exibida nas redes sociais destoaria do perfil previsto em lei para os programas do Incra, segundo a Assoplan. O documento ressalta ainda a ligação da influencer com grandes produtores de soja da região.
A denúncia cita ainda como beneficiários um fazendeiro já processado pelo próprio Incra e uma servidora da Defensoria Pública do Estado do Mato Grosso – por lei, funcionários públicos não podem ser contemplados com lotes de reforma agrária. Assim como Michelle, ambos tiveram seus nomes incluídos em 27 de dezembro do ano passado.
Procurado, o Incra informou que a influencer e o fazendeiro estão com o cadastro bloqueado pela autarquia e que podem ser excluídos da relação. O cadastro da servidora pública, contudo, segue ativo.
Segundo o órgão, nenhum dos três chegou a receber os benefícios destinados aos clientes da reforma agrária, como linhas especiais de financiamento. O Incra diz ainda que o contrato de concessão de uso da terra também não foi emitido. Os lotes, no entanto, seguem vinculados aos três e não podem ser distribuídos a outros beneficiários.
O Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá foi criado em 1995 para beneficiar mais de mil famílias em uma área de 115 mil hectares, equivalente à do município do Rio de Janeiro. Ao longo das décadas, no entanto, as terras foram apropriadas por produtores de soja.
Documentos reunidos pelo MPF e pela Polícia Federal mostram que mais de mil lotes foram transferidos para cerca de 80 grupos familiares ou fazendeiros, em processos que teriam envolvido ameaças, contratos irregulares e uso de laranjas.
No ano passado, uma decisão de primeira instância da Justiça Federal determinou que a União retomasse 170 lotes dentro do assentamento – alguns chegaram a ser sorteados pelo Incra para famílias sem-terra, mas a posse segue em disputa no judiciário.
Influencer morava no Paraná até 2018 e é formada em pedagogia
O irmão da influencer, Leandro Zavodini, é produtor rural e proprietário da Agrícola Maripá, com sede em Lucas do Rio Verde (MT), um dos maiores pólos de produção de soja do país. Em novembro do ano passado, ele recebeu um prêmio de R$ 3,5 milhões ao vencer o torneio de pôquer The Legends.
A influencer trabalhou no escritório do irmão, após deixar Marechal Cândido Rondon (PR), em 2018. Em entrevista concedida a um podcast, em agosto de 2024, Michelle contou que se mudou para o norte do Mato Grosso enquanto estava grávida, para ficar mais perto da família. “Foi muito difícil me encontrar. Estava totalmente perdida”, disse.
Após o período trabalhando com o irmão, Michelle, pedagoga de formação, abriu uma escola infantil, mas precisou encerrar as atividades por causa da pandemia de Covid-19. Foi então que, segundo ela, descobriu sua vocação como influencer. Na entrevista ao podcast, ela não faz qualquer menção a vínculos com o assentamento.
A Repórter Brasil procurou Michelle e a questionou sobre a inclusão de seu nome no cadastro do Incra como beneficiária da reforma agrária. “Não estou sabendo da denúncia [feita pela Assoplan] e, por este motivo, não tenho nada a declarar”, afirmou. Seu irmão Leandro também foi questionado, mas não respondeu as perguntas e disse apenas que não autorizaria a publicação de seu nome.
A denúncia também cita Karen Larissa Torres, assessora jurídica da Defensoria Pública do Estado em Tangará da Serra (MT) desde agosto de 2022. A servidora também aparece no cadastro oficial como beneficiária de um dos lotes, apesar de receber salário mensal de cerca de R$ 9 mil e de não ter perfil de trabalhadora rural, segundo a denúncia encaminhada à DPU e ao MPF.
A Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso informou que abrirá procedimento interno para apurar o caso e ouvir a servidora. Leia aqui a íntegra da resposta.
Outro nome denunciado é o de Alex Stein Fortes, incluído na lista de assentados homologados no final de 2024. Fortes responde a uma ação civil pública movida pelo próprio Incra em 2022 por suspeita de manter posse indireta e indevida de um lote do assentamento Tapurah/Itanhangá, por meio de intermediários. A ação cita ainda possíveis desmatamento irregular, contratos simulados e financiamento milionário de produção agrícola em terras públicas.
Procurado, o advogado de Fortes disse que não comenta processos sub judice. “A nossa visão dos fatos se encontra presente no processo e, em breve, tudo será devidamente esclarecido”, afirmou.