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Conta de luz pesa no bolso dos brasileiros e mais de 70% do valor não corresponde à energia consumida

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Mesmo com quase 90% da eletricidade produzida a partir de fontes renováveis, o Brasil mantém tarifas de energia superiores às de alguns países com perfil semelhante de geração. Um estudo encomendado pelo Centro de Liderança Pública (CLP) identificou os principais fatores que encarecem a conta de luz no país, entre eles os custos de distribuição, transmissão, encargos setoriais e tributos.

O impacto das tarifas é sentido tanto por consumidores residenciais quanto pelo setor produtivo. Na Zona Norte do Rio de Janeiro, por exemplo, um condomínio com mais de 400 apartamentos e cerca de 3 mil moradores desembolsa aproximadamente R$ 40 mil por mês com energia elétrica.

Segundo o síndico profissional responsável pelo empreendimento, a despesa representa entre 20% e 40% do custo total do condomínio, comprometendo recursos que poderiam ser destinados a melhorias e novos investimentos.

A energia elétrica também ocupa posição de destaque no orçamento das famílias brasileiras. Entre os produtos e serviços considerados no índice de inflação, o setor tem o terceiro maior peso, ficando atrás apenas da gasolina e dos planos de saúde.

O levantamento foi elaborado pelo economista Daniel Duque, da Fundação Getulio Vargas (FGV), e mostra que apenas 30,4% do valor da conta de luz correspondia, em 2025, ao custo da energia propriamente dita.

Em uma fatura de R$ 1 mil, por exemplo, aproximadamente R$ 304 correspondem à energia consumida. O restante é dividido entre distribuição (26%), transmissão (10%), encargos setoriais (15%) e tributos (18%).

Esses componentes incluem custos para manter a estrutura de fornecimento, programas sociais e subsídios concedidos a determinados setores, como a agricultura irrigada.

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Outro fator que influencia o preço são as exigências legais de contratação de energia de determinadas fontes, como termelétricas e pequenas centrais hidrelétricas. O sistema de bandeiras tarifárias também pode elevar o valor pago pelos consumidores quando as condições de geração ficam mais caras, especialmente em períodos de menor disponibilidade de água nos reservatórios.

Embora o Brasil não esteja entre os países com as tarifas mais elevadas do mundo, o estudo aponta que a energia nacional custa mais do que em países com características semelhantes de geração renovável, como Canadá, Noruega e China.

Para o economista Daniel Duque, a redução dos custos também depende de maior integração entre os governos federal, estaduais e municipais. Entre as medidas apontadas está o combate às perdas nos sistemas de transmissão e distribuição, que, segundo ele, são superiores às registradas em outros países.

O alto custo da eletricidade também afeta diretamente a competitividade da indústria. Empresas que dependem de energia durante todas as etapas de produção precisam incorporar essa despesa ao preço final dos produtos, o que pode reduzir sua capacidade de competir no mercado internacional.

Um exemplo é uma indústria de processamento de pescado com 82 anos de atuação, que passou a investir em alternativas para reduzir o consumo e os gastos com eletricidade. Entre as medidas adotadas estão a instalação de duas usinas solares, a substituição de equipamentos por modelos mais eficientes e o uso de inteligência artificial para administrar o consumo.

Com essas iniciativas, a empresa conseguiu reduzir em até 30% os custos com energia elétrica, demonstrando como investimentos em eficiência energética podem ajudar a diminuir o impacto das tarifas sobre a atividade econômica.

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