A Caramuru Alimentos, que possui investimentos bilionários em Mato Grosso, admitiu na quinta-feira “indícios de pagamentos” de R$ 6,2 milhões por parte de funcionários em propina a um fiscal da Receita Federal. Esse pagamento seria em “quatro potenciais operações” para evitar autuações tributárias relativas ao recolhimento de PIS/Cofins.
Por isso, balanços da companhia entre 2021 e 2023 serão revistos e poderão ser reapresentados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). As informações constam em um fato relevante e um comunicado ao mercado publicados nesta noite no site da CVM.
Apesar de investigações constatarem que os potenciais pagamentos ocorreram entre 2014 e 2017, o período revisto, a partir de 2021, coincide com o processo de abertura de capital da Caramuru. A oferta pública de ações não ocorreu, mas a companhia, que aguarda uma janela para o IPO, segue listada como “Categoria A” na CVM para a emissão de títulos de valores mobiliários.
Ao AgFeed, a empresa informou que três funcionários – dois deles envolvidos diretamente e um indiretamente – foram desligados do quadro de colaboradores e que cabe à CVM o procedimento para prosseguir com as investigações nas esferas criminal e cível. A Caramuru informou à reportagem que, por “questão de ética”, não mencionará os nomes dos colaboradores e nem do fiscal.
Pelo mesmo motivo, a companhia não comentou se o fato estaria ligado às renúncias, em dezembro passado, do então diretor-presidente Júlio César da Costa e do então diretor de Logística e Porto Antônio Ismael Ballan. A saída dos executivos foi comunicada oficialmente no início de janeiro.
Na época, Marcus Thieme, que era diretor financeiro e de Relações com Investidores, passou a ocupar também o cargo de diretor-presidente. “A companhia esclarece que os impactos financeiros identificados até o momento são irrelevantes para suas demonstrações financeiras”, informou no documento.
Os três balanços serão revistos pela Deloitte Touche Tohmatsu Auditores Independentes, que já os auditou no período. A empresa será substituída pela Ernst & Young Auditores Independentes na auditoria das demonstrações financeiras de 2024. “A resilição contratual com a Deloitte ocorreu de comum acordo, em decorrência da reavaliação da continuidade da prestação dos serviços, bem como visando a atender boas práticas de governança corporativa pela companhia, por meio do rodízio de firmas de auditoria”, informou.
O caso foi descoberto durante outro processo de investigação interna dentro da companhia. No início do ano passado, a própria Deloitte recebeu denúncia anônima sobre práticas relacionadas à gestão tributária, financeira e operacional da Caramuru, especialmente sobre o tratamento tributário de determinados fluxos de soja.
Segundo o presidente e membro independente do Conselho de Administração da Caramuru, Gustavo Loyola, a Deloitte o informou que não iria auditar o balanço de 2023 e que uma investigação independente teria de ser feita. Um comitê de investigação independente recomendou e supervisionou a contratação do escritório de advocacia Maeda Ayres e Sarubbi Sociedade de Advogados, especializado nesse tipo de investigação, e da PricewaterhouseCoopers (PwC).