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Gaeco suspeita de propina de empresário a ex-gerente de grupo em Sorriso

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Relatório técnico do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) após a primeira fase da OPeração Safra Desviada, realizada em fevereiro deste ano, revelou que a relação entre o empresário Felipe Faccio e Joheberton da Silva Rondon, o “Beto”, então gerente e coordenador administrativo do Grupo Lermen, ia muito além dos negócios. Além de transferir valores vultuosos em PIX para Beto, Felipe aparece cobrando documentos e pressionando o ex-funcionário do grupo Lermen, que teria sido vítima de um esquema de desvio de grãos no valor de R$ 140 milhões.

O Gaeco investiga um esquema que teria gerado um rombo milionário ao grupo do agronegócio. Faccio e Beto são investigados por “desvio sistemático de grãos, manipulação e omissão de registros, uso de controles paralelos, emissão e cancelamento fraudulento de notas fiscais e transferência irregular de créditos e royalties, cessões de crédito indevidas, e indícios de fraude documental”.

“Diante da análise exploratória realizada no aparelho celular vinculado ao investigado Joheberton da Silva Rondon, verifica-se a existência de elementos consistentes que indicam a possível prática de condutas ilícitas, especialmente relacionadas à movimentação financeira atípica, uso de terceiros para intermediação de valores, e tratativas envolvendo operações comerciais potencialmente irregulares. A análise do dispositivo celular revelou um conjunto consistente de elementos que corroboram as hipóteses investigativas acerca da existência de uma organização criminosa estruturada, com atuação voltada ao desvio de grãos, fraudes operacionais e movimentações financeiras ilícitas”, opina o Gaeco. 

As mensagens foram extraídas do celular de Beto e integram o relatório técnico a segunda fase da operação, deflagrada na sexta-feira passada. O documento, produzido a partir da perícia feita no celular apreendido de Beto, aponta que as conversas reforçam a suspeita de que os dois mantinham uma relação estratégica dentro do esquema investigado pelo Ministério Público.

Segundo o Gaeco, os diálogos apresentam “condutas, tratativas e ações” que podem demonstrar a participação do investigado nos fatos apurados. Entre os principais elementos está o envio, por Felipe Faccio, de dois comprovantes de Pix, um de R$ 200 mil e outro de R$ 50 mil, totalizando R$ 250 mil destinados a Joheberton.

Em outro momento, o relatório registra ainda uma nova transferência de R$ 100 mil, que, conforme a investigação, faria parte de um compromisso financeiro de R$ 1 milhão entre os envolvidos. As mensagens mostram que a relação entre os dois não se limitava ao envio de dinheiro.

Felipe aparece cobrando insistentemente que Beto conseguisse a assinatura de uma carta de fiança e de uma carta de anuência em nome do Grupo Lermen. Em uma das mensagens extraídas do aparelho de Felipe, ele afirma que “precisamos da carta de fiança onde todo mundo confessa a dívida da Agropecuária Campo Santo”.

Para o Gaeco, as conversas demonstram a preocupação em formalizar documentos relacionados às negociações investigadas. Meses depois, os papéis se inverteram.

Em um áudio enviado em agosto de 2025, Beto cobra Felipe pelo restante de valores que, segundo ele, haviam sido prometidos meses antes. “Era pra abril, né cara? Tô esperando até agora… é tudo que eu tenho pra viver, pra pagar as contas”, diz.

Na avaliação dos investigadores, mesmo após deixar o Grupo Lermen, Beto continuava cobrando pagamentos que, segundo ele, seriam destinados ao custeio de despesas pessoais. As conversas também revelam o aumento da tensão entre os dois.

Em setembro, Felipe passa a pressionar Beto para resolver pendências envolvendo contratos e uma CPR. Em uma sequência de mensagens, ele dispara: “Minha paciência hoje termina.”

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Em outra conversa, demonstra preocupação com a situação financeira do Grupo Lermen: “Se o Alexandro [Lermen] abrir RJ, nós estamos fudidos.”

Já em outro trecho, considerado um dos mais contundentes do relatório, Felipe faz um alerta que foi interpretado pelos investigadores como uma forma de pressão: “Se eles me apertar vou falar da soja…”

Na mesma conversa, Beto tenta acalmar o empresário e apela para a amizade entre os dois. “Eu valorizo muito a amizade que tenho com você… Vamos sentar com ele e resolver isso”.

Pouco depois, Felipe revela que estava sendo cobrado até pelos próprios parceiros de negócio. “Meus sócios me pediram quanto de comissão você ganhava.”

As cobranças continuaram nas semanas seguintes. Em outubro, Felipe volta a reclamar da demora na assinatura dos documentos necessários para os negócios e desabafa:

“Que foda… ter que tá se humilhando pra ter os documentos assinados.” Em fevereiro deste ano, o Gaeco deflagrou a Operação Safra Desviada para apurar um suposto esquema de desvio de soja, milho e algodão que teria causado prejuízo estimado em R$ 140 milhões ao Grupo Lermen e a outras empresas do agronegócio.

Na época, a investigação apontou que um núcleo interno, formado por funcionários e ex-funcionários da empresa, atuava em conjunto com um núcleo externo composto por empresários para desviar cargas, manipular registros, emitir documentos fraudulentos e ocultar a movimentação financeira do grupo. Conforme revelado pela reportagem em fevereiro, a investigação já indicava que uma segunda fase da operação poderia atingir integrantes apontados como centrais no esquema — justamente etapa que resultou na apreensão do celular de Beto e na produção do relatório que agora detalha a proximidade entre ele e Felipe Faccio.

Nesta sexta-feira (24), o Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) deflagrou a 2ª fase da Operação Safra Desviada, que investiga um esquema criminoso de desvios estimados em R$ 28,7 milhões ao agronegócio de Mato Grosso. De acordo com as investigações, a estrutura utilizada pelos investigados teria causado prejuízos a produtores rurais e empresas do segmento. Os suspeitos também teriam adotado medidas para dificultar a atuação das investigações.

O grupo é suspeito de utilizar empresas e de mecanismos financeiros para obter vantagens ilícitas em operações relacionadas ao setor algodoeiro. Nesta etapa da operação, estão sendo cumpridos 14 mandados de busca e apreensão, além de medidas patrimoniais contra os investigados.

Entre as determinações judiciais estão o sequestro de uma aeronave e de três veículos, a quebra dos sigilos bancário e fiscal de 10 pessoas físicas e jurídicas, o bloqueio de ativos financeiros,  a indisponibilidade de bens imóveis dos investigados. O cumprimento das ordens judiciais ocorre nos municípios de Lucas do Rio Verde, Nova Ubiratã, Sinop e Tapurah, em Mato Grosso, além de Presidente Prudente e Álvares Machado, no estado de São Paulo.

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