Uma organização não governamental com sede em Várzea Grande, especializada no acolhimento de mulheres vítimas de violência, é apontada como o destino de recursos públicos federais oriundos do Ministério da Agricultura. A Lírios – Associação de Desenvolvimento Humano e Social recebeu R$ 6,1 milhões da pasta, valor que pode ainda chegar aos R$ 10 milhões, caso sejam considerados os montantes já empenhados.
A vereadora Maysa Leão (Republicanos) já atuou na ONG e possui uma parceria com a entidade, que atua em “atividades de associações de defesa de direitos sociais”, segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). Não constam no cadastro oficial atividades relacionadas ao agronegócio, assistência técnica rural ou gestão de cadeias produtivas, áreas diretamente ligadas à competência do Ministério da Agricultura.
De acordo com dados do Portal da Transparência do Governo Federal, os repasses foram oficializados por meio de termos de fomento. Um deles, no valor de R$ 1,3 milhão, tem como objetivo declarado a implantação da “Rota da Banana”.
Outro, de R$ 4,8 milhões, foi destinado ao projeto “Rotas de Integração”. Os recursos foram liberados pelo ministro Carlos Fávaro (PSD), que comanda a pasta.
O conteúdo dos documentos não especifica como uma entidade sem expertise declarada no setor agrícola executaria tais projetos. Instalada na Rua da Fraternidade, no Jardim Imperador II, em Várzea Grande, a ONG funciona em um imóvel cedido pelo Grupo Espírita Fraternidade.
FIQUE ATUALIZADO COM NOTÍCIAS EM TEMPO REAL: GRUPO DO WHATSAPP | INSTAGRAM DO CN NEWS MT
O espaço é utilizado prioritariamente para ações comunitárias e apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade, público que a entidade atende desde sua fundação, em 2013, quando surgiu a partir de uma audiência pública sobre violência doméstica no município. A aparente contradição entre a estrutura modesta da sede, o perfil assistencial da instituição e os recursos destinados por um ministério técnico originou a desconfiança de autoridades.
CONFUSÃO
Em uma entrevista, na última terça-feira (10), na Câmara Municipal de Cuiabá, o prefeito da capital, Abílio Brunini (PL), mencionou o repasse, mas acabou sendo interpelado por Maysa Leão. A parlamentar, que aparece em registros fotográficos ao lado do ministro Carlos Fávaro em eventos relacionados às emendas, confirmou que a presidente da ONG, Muriel Brito Torres, coordenou sua campanha eleitoral em 2022.
Dados oficiais apontam que Muriel recebeu R$ 10 mil pelos serviços prestados à época. Brunini questionou a legalidade e a motivação política dos repasses. Maysa, por sua vez, rebateu afirmando que qualquer suspeita de irregularidade deveria ser formalizada e levada ao Ministério Público de Mato Grosso (MP-MT).