A disputa pelo Senado em Mato Grosso em 2026 começa com um favorito claro à primeira vaga e uma série de incertezas em torno da segunda cadeira. Com Mauro Mendes (União) liderando todas as pesquisas e virtual candidato a uma das duas vagas, a eleição tende a se concentrar na briga pela segunda cadeira, um espaço onde a fragmentação da direita e a estratégia de reaproximação do governo Lula com o agronegócio podem favorecer Carlos Fávaro (PSD) em uma disputa acirrada.
Ministro da Agricultura desde o início do terceiro mandato de Lula, Fávaro entra no ano eleitoral como o principal representante do bloco lulista no Estado. O palanque para sustentar a campanha de reeleição do presidente em um ambiente majoritariamente bolsonarista, assim como a organização das chapas proporcionais desse campo político, passa diretamente pelo projeto majoritário de Fávaro. Ao invés de uma candidatura ao governo, será ele, candidato ao Senado, a locomotiva desse grupo em 2026.
Menos ideologia, mais interlocução
Diferentemente de outros líderes da esquerda, Fávaro opera menos no discurso ideológico e mais na funcionalidade. Sua atuação combina emendas parlamentares para municípios, crédito rural para pequenos e médios produtores, abertura de mercados internacionais para o agronegócio e manutenção de canais permanentes com Brasília.
Esse método ajudou a viabilizar uma reaproximação entre o governo Lula e parte do agronegócio, algo que, até poucos anos atrás, parecia improvável em Mato Grosso. Hoje, a ApexBrasil mantém um escritório dentro da sede da Famato, em Cuiabá, com uma foto oficial do presidente Lula no local. O gesto não é decorativo: simboliza um esforço deliberado de reconstrução de pontes entre o Planalto e setores estratégicos do agro mato-grossense, operação conduzida diretamente por Fávaro.
Essa atuação também garantiu ao ministro uma rede de interlocução espalhada por todo o Estado. Ainda que poucos prefeitos devam declarar apoio explícito, já que Fávaro estará em campo oposto ao grupo que comanda o governo estadual, ele tende a contar com lideranças locais em praticamente todos os municípios, resultado do trabalho com emendas parlamentares e da atuação à frente do Ministério da Agricultura.
Fávaro também conta com o apadrinhamento político de figuras como Blairo Maggi e Eraí Scheffer. São apoios que ajudam a abrir portas no grande agronegócio e conferem credibilidade a uma candidatura que transita entre a centro-esquerda e setores pragmáticos da centro-direita.
A soma desses fatores tende a garantir a Fávaro o apoio das lideranças da esquerda lulista e de parcelas relevantes do centro político, tornando sua candidatura competitiva. A dificuldade está no contexto, pois, em um Estado bolsonarista, ele carregará a bandeira de Lula sem ser unanimidade nem entre as bases da esquerda, que ainda vêem com reservas seu perfil ligado ao agronegócio e sua passagem como vice-governador na gestão de Pedro Taques.
Campo conservador dividido
Do outro lado, a direita chega a 2026 sem unidade. O grupo liderado por Mauro Mendes trabalha para eleger Otaviano Pivetta (Republicanos) ao governo e empurrar Jayme Campos (União) para a tentativa de reeleição ao Senado. Já o PL aposta em Wellington Fagundes para o governo e em José Medeiros como um de seus nomes ao Senado, enquanto, nos bastidores, Janaína Riva surge como possibilidade para compor a chapa.
Janaína, por sua vez, avalia uma candidatura avulsa ao Senado, estratégia que permitiria liberar as bases do MDB para apoiar candidatos ao governo tanto no campo de Pivetta quanto no de Wellington, sem um alinhamento formal do partido.
Há ainda o fator Antonio Galvan, bolsonarista ideológico e avesso às estruturas partidárias tradicionais, que deve montar palanque próprio pelo Democracia Cristã, fragmentando ainda mais o voto conservador. Soma-se a isso a possibilidade de o vereador Rafael Ranalli (PL) disputar o Senado pelo Novo, compondo chapa com Medeiros e Wellington Fagundes e ampliando a pulverização da direita.
Nesse cenário, Fávaro tende a se beneficiar menos de uma onda de apoio e mais do canibalismo eleitoral dos adversários. Enquanto a direita se reparte em projetos concorrentes, ele pode concentrar o voto do campo lulista e de setores do agro que, sem aderir ao governo, preferem manter um canal direto com Brasília.
O fator Taques
Diante de uma direita fragmentada, uma das estratégias do núcleo político de Carlos Fávaro é apostar em uma candidatura única da esquerda ao Senado, para concentrar votos, mesmo com o eleitor podendo escolher dois nomes. A ideia é fazer de Fávaro a única opção viável para o eleitorado lulista.
Esse plano, porém, enfrenta obstáculos. Recentemente, o ex-governador Pedro Taques, com quem Fávaro rompeu politicamente em 2018, voltou ao cenário ao assumir o comando do PSB no Estado. Movido pelo objetivo de fazer oposição eleitoral a Mauro Mendes, Taques passou a articular sua candidatura ao Senado no campo da esquerda diretamente em Brasília.
O presidente nacional do PT, Edinho Silva, chegou a anunciar publicamente essa composição, mas recuou após identificar forte resistência local ao nome do ex-governador. Nos bastidores, o recuo foi atribuído tanto à reação das lideranças do PT e de partidos aliados quanto à sinalização de Fávaro de que poderia disputar a eleição fora do arco petista caso Taques fosse imposto como segundo nome.
No entorno do ministro, a avaliação é direta: Taques não agrega votos à candidatura de Fávaro, mas soma rejeição, um risco alto em uma eleição que tende a ser decidida por margens estreitas.


