O Governo Federal registrou déficit primário de R$ 92,2 bilhões no primeiro semestre de 2026, resultado mais de oito vezes superior ao observado no mesmo período de 2025, quando o saldo negativo foi de R$ 11,3 bilhões. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (30) pelo Tesouro Nacional, por meio do Relatório Mensal da Dívida (RMD).
O resultado reúne as contas do Tesouro Nacional, da Previdência Social e do Banco Central e considera a diferença entre receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida pública.
Segundo o relatório, a piora nas contas públicas ocorreu porque as despesas líquidas, já descontada a inflação, cresceram R$ 149,2 bilhões (12,3%) entre janeiro e junho, enquanto as receitas avançaram R$ 67,7 bilhões (5,6%) no mesmo período.
Em junho, o déficit foi de R$ 48,2 bilhões, acima dos R$ 44,2 bilhões registrados no mesmo mês do ano passado. A receita líquida somou R$ 195,2 bilhões, enquanto as despesas atingiram R$ 243,4 bilhões.
No acumulado de 12 meses, o déficit primário chegou a R$ 144,1 bilhões, o equivalente a 1,08% do Produto Interno Bruto (PIB).
Saúde, Previdência e diesel pressionam despesas
Entre os fatores que mais contribuíram para o avanço dos gastos em junho, o Tesouro destacou o aumento das despesas com saúde. Os pagamentos discricionários na área cresceram R$ 5,1 bilhões em relação ao mesmo mês de 2025, enquanto as despesas obrigatórias avançaram R$ 3,9 bilhões.
Outro ponto de pressão veio dos créditos extraordinários, que totalizaram R$ 3 bilhões no mês. Desse montante, R$ 2,1 bilhões foram destinados à subvenção ao óleo diesel rodoviário, medida adotada para reduzir os impactos econômicos dos conflitos no Oriente Médio.
Os benefícios previdenciários também aumentaram R$ 2,1 bilhões acima da inflação, impulsionados pela ampliação do número de segurados e pela política de valorização real do salário mínimo.
As despesas com pessoal cresceram R$ 1,3 bilhão, principalmente em razão do reajuste concedido aos servidores federais. Já os pagamentos de abono salarial e seguro-desemprego avançaram R$ 1,7 bilhão.
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Precatórios também influenciaram resultado
O desempenho do semestre também foi afetado pelo calendário de pagamento de precatórios e sentenças judiciais. Em 2026, a maior parte desses desembolsos foi concentrada em março, enquanto em 2025 ocorreu principalmente em julho, o que altera a comparação entre os dois períodos.
As despesas classificadas como custeio e investimento relacionadas a sentenças judiciais e precatórios cresceram R$ 35,6 bilhões acima da inflação.
Petróleo impulsiona arrecadação
Apesar da deterioração fiscal, algumas receitas apresentaram desempenho positivo. A exploração de recursos naturais gerou R$ 5,3 bilhões adicionais em junho, crescimento real de 77,9%, favorecido pela alta do preço internacional do petróleo, pelo aumento da produção e pela comercialização de óleo e gás pertencentes à União.
A arrecadação do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) aumentou R$ 3,7 bilhões, com destaque para o setor automotivo. O Imposto de Importação rendeu R$ 2 bilhões a mais que em junho de 2025.
Outras receitas administradas pela Receita Federal cresceram R$ 3,6 bilhões, incluindo R$ 3,8 bilhões obtidos com o Imposto de Exportação sobre petróleo bruto.
No entanto, os dividendos e participações pagos por empresas com participação da União recuaram 58% em termos reais no primeiro semestre, redução equivalente a R$ 14,5 bilhões.
A maior queda veio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com R$ 6,7 bilhões a menos. Também houve redução nos pagamentos da Caixa Econômica Federal (R$ 2,3 bilhões), Petrobras (R$ 2,2 bilhões), Banco do Brasil (R$ 2 bilhões) e Eletrobras (R$ 1,2 bilhão).
O resultado reforça o desafio do governo para equilibrar o crescimento das despesas públicas e manter o controle das contas fiscais em um cenário de aumento de gastos obrigatórios e menor contribuição das estatais para a arrecadação federal.