Quem caminha pelas ruas arborizadas e iluminadas por LED de Sorriso, no norte de Mato Grosso, pode esquecer por um instante que está na Capital Nacional do Agronegócio. Com cerca de 1,2 milhão de hectares cultivados, o município lidera o valor da produção agrícola no Brasil. No entanto, a verdadeira colheita que transforma a rotina dos seus mais de 110 mil habitantes ocorre na intersecção entre a lavoura tecnológica e a sustentabilidade urbana.


Nos últimos anos, o conceito de sustentabilidade deixou de ser apenas um selo corporativo para se tornar o motor econômico da cidade. Produtores locais, articulados em torno de entidades como o Clube Amigos da Terra (CAT Sorriso), vêm liderando uma transição em massa para a agricultura regenerativa. Práticas como o sistema de plantio direto, rotação de culturas e a certificação internacional da soja geram bônus financeiros milionários que são reinvestidos diretamente no ecossistema local.
O ciclo da riqueza: da terra para a escola
A lógica é simples: solo saudável produz mais, gasta menos defensivos e atrai investimentos. Esse superávit do campo abastece os cofres públicos, permitindo que a prefeitura injete verbas pesadas em programas sociais e ambientais na zona urbana.
O principal reflexo dessa sinergia é o programa municipal Eco Sorriso. Financiado pelo fôlego financeiro que o agro traz ao município, o projeto expandiu a coleta seletiva para quase 90% do território urbano, garantindo o título nacional de “Cidade Lixo Zero”. O impacto vai além do meio ambiente; gera emprego na triagem de recicláveis e alimenta a economia circular.
A educação também é diretamente beneficiada pelo campo. O projeto “Escola Lixo Zero” já capacitou mais de 1.300 professores da rede pública em educação ambiental. O resultado prático aparece nos rankings: hoje, Sorriso possui nove escolas entre as 100 melhores de Mato Grosso.
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Produtores na vanguarda da preservação
A transformação da cidade começa dentro da porteira. Produtores da região têm focado na recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e na proteção de recursos hídricos. Recentemente, ações conjuntas mobilizaram estudantes e agricultores para a preservação das nascentes do Rio Tenente Lira, um dos principais mananciais que abastecem a região.
Paralelamente, incentivos à agricultura regenerativa fizeram com que o município recebesse o bônus de mais de R$ 6 milhões pela comercialização de soja sustentável certificada. Esse dinheiro carimbado impulsiona novas tecnologias biológicas no solo, reduzindo a pegada de carbono de toda a cadeia produtiva.
O município também aposta na verticalização dessa produção com foco verde. A recém-criada Zona de Desenvolvimento do Agronegócio (ZDA) atrai indústrias que processam a matéria-prima local sob rígidos critérios de transição energética.
“Queremos avançar gerando empregos e reforçando que o agro e a sustentabilidade caminham juntos”, aponta a gestão municipal, destacando que a arrecadação do campo viabilizou investimentos que ultrapassam R$ 250 milhões em asfalto, saúde e infraestrutura urbana.
Ao provar que a lavoura de alta produtividade não precisa caminhar de costas para o meio ambiente, Sorriso redesenha o mapa do interior do país. O município demonstra que a pujança do campo cumpre sua função social mais nobre quando se traduz em calçadas limpas, escolas de qualidade e dignidade para quem vive na cidade.

Wésllen Tecchio