“Infelizmente, a gente percebe que temos criminosos dentro da nossa própria instituição. E isso é muito triste”. A declaração é da delegada Layssa Leal, responsável pela investigação do estupro de uma jovem de 24 anos dentro da própria Delegacia de Sorriso (420 km de Cuiabá).
BANHO COM DETERGENTE
Após os estupros, a jovem afirmou que foi forçada a se lavar com detergente enquanto o policial observava. “Mandou eu me lavar com detergente, tomei banho, ele ficou me olhando”, emendou.
Segundo ela, permaneceu algemada em todas as vezes.”E sempre com uma pistola na mão”, acrescentou a vítima.
A mulher ainda revelou que perdeu um bebê há poucos dias e ficou com medo de engravidar do policial. “Me levou para dentro da cela. Me trancou lá. Tinha acabado de perder um bebê. Isso poderia ter dado uma gravidez”, lembrou.
A delegada Layssa Leal, 40 anos, que está há dois anos na cidade, falou sobre os desafios de apurar um crime cometido por alguém de dentro da própria instituição. “É muito complexo, muito complicado, muito difícil. Porque a gente entende que o policial está aqui para defender”, disse.
“Ele, na verdade, veio em um período em que a delegacia estava mais vulnerável, somente com os policiais plantonistas”, informou a delegada acrescentando que não havia outros plantonistas no mesmo alojamento. O furto de um celular funcional da delegacia, subtraído por uma presa, fato que expôs conversas em um grupo de mensagens formado por policiais da unidade também foi destaque da matéria.
O conteúdo revelou comentários e falas que levantaram questionamentos sobre a conduta de servidores e ajudaram a ampliar as apurações internas. A reportagem mostra ainda o momento em que Roberto Cabrini conversa por telefone com o delegado Bruno França, então chefe da divisão.
Questionado sobre os áudios que sugerem violência contra presos e a existência de um suposto grupo de extermínio, ele nega. “Não, eu não posso, lógico que não”, afirmou, acrescentando que não poderia conceder entrevista sem autorização.
Os áudios exibidos mostram sugestões de “corretivo” em presos e mensagens que causaram espanto até entre outros policiais do grupo. Durante a apuração, exames periciais confirmaram a compatibilidade genética entre o material biológico da vítima e o do investigador.
Confrontado com o resultado, o policial acabou admitindo o crime no momento da prisão. “Desculpa, doutora, por ter mentido para a senhora… de fato aconteceu. E estava contando com o negativo do exame”, declarou, segundo a delegada.
Ele foi preso preventivamente e encaminhado para a Cadeia Pública de Chapada dos Guimarães. A Polícia Civil informou que deslocou equipes da Corregedoria para Sorriso e reforçou que não tolera desvios de conduta. Já a vítima, que estava presa por suspeita de homicídio, teve a prisão temporária revogada, mas depois passou a ser considerada foragida em outro processo.
A jovem admite que tem passagem por tráfico de drogas, mas nega qualquer ligação com organização criminosa. “Não, senhor. É somente tráfico de drogas. Fui condenada a três anos e seis meses”, declarou.
Sobre a forma como foi presa, ela diz que a abordagem foi violenta e dentro de casa. “Foram me buscar na minha casa, arrombaram a porta da minha casa. Me enquadraram e me levaram”, afirmou.
NOTA
Polícia Civil de Mato Grosso informa que, em razão da gravidade das denúncias veiculadas sobre a conduta de policiais em Sorriso, determinou-se o deslocamento imediato de equipe da Corregedoria até o município para acompanhar as investigações.
Essa determinação tem o intuito de reforçar e dar maior agilidade às apurações que já estão sendo realizadas pela Delegacia de Sorriso, visando aprofundar as diligências, que seguirão com o rigor necessário no tratamento dos fatos.