O El Niño 2026/2027 está ganhando força rapidamente e pode se tornar um dos episódios mais intensos já registrados. Para Mato Grosso, principalmente na região norte do estado, a combinação prevista de menos chuva e temperaturas acima da média aumenta a preocupação com seca prolongada, incêndios florestais, disponibilidade de água e atraso no início do plantio.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou, em atualização divulgada no dia 3 de setembro, que existe uma probabilidade próxima de 100% de o El Niño permanecer ativo até fevereiro de 2027. O fenômeno deve continuar se intensificando nos próximos meses e atingir o pico próximo ao fim de 2026.
No Brasil, o cenário também é tratado com atenção. O mais recente Painel El Niño 2026–2027, elaborado por órgãos federais, aponta probabilidade superior a 90% de o fenômeno alcançar intensidade muito forte entre setembro e novembro.
O relatório cita ainda projeção da agência meteorológica norte-americana NOAA que calcula em 69% a possibilidade de este El Niño se tornar o mais forte registrado desde 1950.
Pacífico está muito mais quente
Um dos principais sinais da intensificação está nas águas do Oceano Pacífico Equatorial.
Segundo a OMM, o índice Niño 3.4, utilizado como uma das referências para acompanhar o fenômeno, registrou temperaturas cerca de 2°C acima da média em julho. Entre o fim de julho e meados de agosto, valores semanais chegaram a variar entre 2,2°C e 2,6°C acima do normal.
O aquecimento abaixo da superfície do oceano é ainda mais expressivo. Em determinadas áreas do Pacífico, as águas subsuperficiais ficaram mais de 8°C acima da média entre julho e o início de agosto.
Para o trimestre de setembro a novembro, os modelos globais da OMM projetam anomalia média de aproximadamente 3,6°C na região Niño 3.4, com trajetória de intensificação até novembro e dezembro.
Esse grande volume de água quente funciona como uma espécie de combustível para a manutenção e o fortalecimento do fenômeno.
Menos chuva no norte de Mato Grosso
Para os próximos meses, as projeções brasileiras indicam chuvas abaixo da média em partes de Mato Grosso, com destaque para o norte do estado.
A previsão para setembro, outubro e novembro aponta redução das precipitações também em áreas da Região Norte, Nordeste e do Brasil Central.
Além da menor quantidade de chuva, as temperaturas devem permanecer acima da média em toda a Amazônia Legal e no Pantanal.
Para cidades do norte de Mato Grosso, a preocupação é justamente com a possibilidade de a chuva demorar mais para se estabelecer de maneira regular.
Com o solo mais seco e temperaturas elevadas, pancadas isoladas podem ocorrer sem necessariamente representar o fim definitivo da estiagem.
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Estiagem pode se prolongar e elevar risco de incêndios
O próprio Painel El Niño alerta que a combinação entre menos chuva e temperaturas elevadas pode prolongar a estação seca, diminuir a disponibilidade de água e criar condições ainda mais favoráveis para incêndios florestais.
O risco de fogo permanece elevado principalmente no Centro-Oeste e no sul da Amazônia, regiões que incluem áreas de Mato Grosso.
A situação ocorre em um momento em que a seca já atinge diferentes partes do país. Em julho, 157 municípios brasileiros estavam classificados em situação de seca severa, e Mato Grosso aparece entre os estados onde houve agravamento das condições.
Além do impacto ambiental, o prolongamento da estiagem pode pressionar rios, reservatórios e sistemas de abastecimento, principalmente caso a retomada das chuvas aconteça de forma irregular.
Agronegócio acompanha chegada das chuvas
No campo, a atenção está voltada principalmente para o início da safra.
Em regiões produtoras como Sorriso, Sinop, Lucas do Rio Verde e municípios do Médio-Norte, o calendário de plantio depende da regularização das chuvas e de umidade suficiente no solo.
Caso as primeiras precipitações ocorram de forma isolada e não tenham continuidade, produtores podem optar por esperar antes de colocar as máquinas no campo, evitando o risco de germinação seguida por um novo período de seca.
Em Lucas do Rio Verde, o coordenador municipal da Defesa Civil, Edgar Savaris, já havia chamado a atenção para a incerteza provocada pelo prolongamento da estiagem.
“O produtor vai na incerteza, não sabe quando vai plantar”, afirmou.
O impacto sobre a agricultura dependerá, entretanto, de como as chuvas vão se distribuir durante a primavera. Um volume mensal próximo da média, por exemplo, não significa necessariamente boas condições para o plantio se a precipitação estiver concentrada em poucos dias e for seguida por longos períodos sem chuva.
El Niño deve chegar ao pico no fim do ano
A OMM prevê que o fenômeno continue aumentando de intensidade e alcance seu pico entre novembro e dezembro de 2026, período que coincide com a estação chuvosa em Mato Grosso. Os efeitos sobre o clima, no entanto, podem continuar durante os primeiros meses de 2027.
O El Niño ocorre quando há um aquecimento persistente das águas superficiais do Pacífico Equatorial central e leste. Essa alteração modifica a circulação atmosférica e consegue influenciar o regime de chuvas e temperaturas a milhares de quilômetros de distância.
Apesar da intensidade prevista, os meteorologistas ressaltam que um El Niño muito forte não significa automaticamente impactos extremos em todos os lugares. Outros fatores, como as condições dos oceanos Atlântico e Índico, também interferem na quantidade e na distribuição das chuvas em cada região.